quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Reincidência - Colmar Duarte

Reincidência

Amanhece, sobre os campos.

A bruma que se esgarça nos banhados,
esconde sangas, e o capim molhado;
Contrasta com o céu límpido e claro
Onde ainda cintila alguma estrela.

Galopeia a tropilha,
Abrindo estrada, no sereno gelado da coxilha,

Do meu galpão
- humilde, enfumaçado -
Olho em silêncio
e me parece um sonho...
E a tropilha, que vem em disparada
dá a ilusão que chega - ainda molhada -
Escapando das águas,
na procela,
onde o mar, engoliu as caravelas,
do tal Juan de Solis
em Maldonado.

E o campeiro,
que avulta, na culatra,
como um centauro contra a luz da aurora?
(Sob tal sortilégio de magia,
imobilizo a cena numa tela:
Juan Manoel Blanes, reconheço agora,
nesses matizes do nascer do dia.)
Por certo, é Tiaraju,
- lunar na testa -
tentando proteger o que nos resta
do instinto predador do bandeirante.

Lembro, os paióis, das safras missioneiras,
Enchendo a boca de gordas algibeiras,
Na rota natural de São Vicente.
E os nativos da terra, novamente
-  mãos amarradas, gritos sufocados -
à mercê da extorsão legalizada.

Retorno à realidade,
É outro tempo.
Dois séculos depois, há outra gente.
Não há mais Tiaraju, nem São Vicente;
somos celeiro de um país com fome.
Carne, lã, trigo, arroz que se consome,
brotam dos campos,
roças, e cercados.

A tropa de Solis, multiplicada,
Cantada em prosa e verso, sua glória!
virou bronze na praça,
fez história,
foi dignificada no trabalho.
A gadaria, alçada e orelhana,
deu lugar aos rebanhos das cabanhas,
que abastecem país, e continente.

Mas nem tudo mudou neste meu pago.
Os nativos da terra estão iguais.
Mãos amarradas, mudos, extorquidos;
a esperar
os retornos prometidos,
aos avós, dos avós de nossos pais...

Falta, este taura de lunar na testa.
Falta, quem fale alto e com entono,
pra defender aquilo que nos resta;
pra mostrar
que esta terra ainda tem dono!

Colmar Duarte
Fonte: Tempo de Viver - Poemas campeiros

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